Blue: a Terra é azul
Marcus de Lontra Costa
2015
Através da observação da paisagem o homem decifra e transforma o mundo. “Toda paisagem
é um estado de espírito” ensina Fernando Pessoa. As instâncias regeneradoras da espécie, a
religião, a arte e a ciência, se estruturam através da curiosidade incansável do olhar humano.
No século XIX os artistas cansados das regras acadêmicas voltaram-se para a natureza e a
pintura “en plain air”. O impressionismo em sua ânsia de congelar o instante fugidio da natureza
acabou por criar as bases da grande aventura modernista.
A arte - e em especial a pintura - sempre será a imagem das histórias que a precedem.
Mai-Britt Wolthers e Suzana Queiroga são portanto herdeiras da tradição. A primeira,
dinamarquesa de nascimento reside há quase três décadas na cidade de Santos. O fauvismo de
suas paisagens compromete-se com a visualidade do Grupo Cobra e com a potência cromática
dos trópicos. Há nessas pinturas uma inerente tensão entre a forma e a matéria, entre o
estado líquido e sólido da matéria, entre o efêmero e o permanente. Por isso a sua pintura .
estranhamente bela como o canto da sereia e faz com que as nossas retinas passeiem por um
território de belezas densas e misteriosas.
Em Suzana Queiroga a referência impressionista se estabelece através da bruma, do contorno
indefinido que valoriza a potência cromática da imagem. Há em cada tela um ver “através” da
densidade da matéria. A superfície plana, o terreno da bidimensionalidade, cede aos encantos
do tempo, do ar que filtra e transforma a realidade. As intensas superfícies cromáticas dos
objetos infláveis da artista se fazem presente na sua pintura inteligente e sensível, que valoriza
a instabilidade como estratégia de ação da artista e estabelece uma equação sensível entre o
tempo e o espaço, entre a forma e a cor, entre o mistério e o real.
A oportunidade de se reunir num mesmo espaço físico duas produções que se complementam
permite compreender a variedade dos caminhos que a paisagem ainda hoje alimenta para
a ação artística e permite também que possamos reencontrar o encanto da pintura em sua
permanente tarefa de ser ponte entre a tradição e o novo.


