Olhos D'água
Luiz Guilherme Vergara
Curador – Diretor
Museu de Arte Contemporânea de Niterói
Introdução
A instalação Olhos d’água, de Suzana Queiroga, inaugura no MAC de Niterói uma virada
tanto para a trajetória da artista quanto para o museu. Primeiramente, trata-se de um conjunto
de obras que resgata difíceis memórias da artista, pela perda do pai em um acidente
de avião na Baía de Guanabara, ressigni/cando dores de uma tragédia que marca seu nascimento.
É também uma homenagem à sua mãe – que estava grávida da artista e representa o cuidado com
a vida. Suzana realiza esta instalação já reconhecendo a geogra/a e a arquitetura deste lugar. A
escolha do MAC se dá em princípio pelo seu posicionamento exatamente em frente ao aeroporto
que seria o destino de um pouso que não aconteceu. Porém, a potência do fenômeno artístico
instaurado no MAC transborda e decola do oceano marcado de memórias passadas, para gerar
um território de eclosão poética.
Esta abordagem da instalação Olhos d’água reconhece primeiramente a difícil constelação biográ
/ca da artista entre nascimento-tragédia, mas também, daí, indissociável de seu valor e virtude
ética, como acontecimento plasmático e plástico de ressonâncias in/nitas. Suzana encarna, nesta
exposição, uma complexa visão ética de Nietzsche da conjugação existencial e espiritual na ressigni
/cação do esquecimento-memória pela potência ativa da força plástica. O amor fati ou presente
total, como virtude do “sim à vida”. Dor e ar, voo-deriva e arte, mar e ilha, vento e alma, eu-balão,
balão-mundo, são alguns dos elementos simbólicos, metafóricos e /losó/cos que se reinventam
pela estética lírica desta odisséia dos Olhos d’água.
Nesta odisséia de Suzana, sua passagem pelos infláveis até os voos de balão remete à curiosa
palavra alemã Fernweh, que signi/ca o oposto da saudade de casa, ou um apego nômade à condição
de viajante, o amor pelo in/nito e por mundos distantes. A falta do pai, o acidente do avião na sua
memória uterina-aquática são parte desse desejar à deriva, navegar, caminhar ou voar, que fundamenta
um abrigo, a verdadeira casa, na distância suspensa dos 0uxos e movimentos da vida. Somos
provocados a viajar também pelos transbordamentos entre as várias camadas da vida da artista e
sua obra em processo. Como separá-los? Por quê? Revisitamos por várias vezes esta pergunta: onde
começa o horizonte ampliado do oceano desta exposição? Mais ainda, quando começa essa virada
conceitual, poética e existencial que revela, simultaneamente, enigmas biográ/cos da vida da artista
e da esfera da eclosão para sua força plástica no mundo contemporâneo? Não estariam essas forças
plásticas e existenciais apontando também para novos horizontes prováveis da arte contemporânea?
Fenomenologia do redondo
A forma circular do MAC, com a varanda totalmente vazada para a paisagem, acolheu o in/nito
oceano desta exposição. Ao apagar das luzes do salão principal, foi suspenso no coração do museu
um grande in0ável azul, alimentado por um potente ventilador que ancora mecanicamente a estética
sublime e lírica desta grande escultura multissensorial.
Para voar é preciso pensar redondo – para pensar redondo é preciso viver esférico, o in/nito
em todas as direções. Assim, Suzana traz para o MAC não apenas uma exposição de pinturas ou
esculturas, mas cadernos de viagem, diários de voos, expondo o oceano da existência, suspenso
como dissoluções reversíveis entre opostos mar-céu.
Nos livros do AR, do MAR e da DOR, Suzana inaugura uma escrita encarnada nas superfícies
dos papéis, também soprada como vento sobre a pele porosa dos jogos plasmáticos entre memória
e esquecimento. Cada poesia deixa pistas e devaneios inscritos ou camu0ados nos desenhos feitos
por uma mão certeira, conduzida pelo pensar redondo – de um Eu-Balão-mundo.
me apequeno
voo
me separo vento (Livro do AR)
Cada obra é atravessada de 0uxos de incertezas universais, que subvertem as escalas micro
e macro entre a série de desenhos e o grande in0ável suspenso. Olhos d’água tem a potência de
encarnar afetos para os sentidos, transbordando a “redondeza do ser”2 como uma lição de solidão
universal que subjaz à própria arquitetura do MAC na sua escala oceânica e celeste. O que se
oferece como experiência da obra de arte: “Com efeito, não se trata de contemplar, mas de viver o
ser em sua imediatez.”
Um balão a caminho do Oriente
Suzana voa com o pensar redondo. Surgem daí visões do ponto arquimediano que Hannah Arendt
elabora a partir do “desejo arquimediano de um ponto fora da Terra a partir do qual o homem
pudesse analisar o mundo”.4 Em um dos pequenos desenhos do Livro do AR, Suzana se coloca no
meio do nó górdio do símbolo do “In/nito” – no centro que une dois círculos do número 8 ou
também de uma ampulheta. Da altura telescópica do balão a artista se vê ou projeta para si um
pequeno corpo 0utuante, como passageira do tempo in0ável e 0uido, parte de um (in)dirigível
0utuante entre mundos – cercada pelo in/nito, presente no in/nito. E inscreve ali seu pensamento
em forma poética:
voo como quem morre
some
dissolve (Livro do AR)
Este é um dos desenhos mais simbólicos, que sintetiza as indagações universais e existenciais da
instalação Olhos d’água. Segue-se a este uma série de imagens sublimes, minúsculas, que 0utuam
sobre papéis iluminados de diferentes tons de azuis, especialmente transformados em pele e mapa
do mundo, como páginas impressas do AR, MAR e DOR da artista. Na atenção minuciosa a cada
um desses desenhos, observam-se estruturas de expressão e poéticas orientais que nos transportam
para um universo transtemporal micro-macro, de uma tatuagem sobre a pele, ou paisagem aérea,
do corpo do mundo. O balão parece estar a caminho do Oriente, absorvendo ou reencarnando
intuitivamente as manifestações de uma estética lírica chinesa, integrando suas três perfeições da
unidade da arte – pintura, poesia e caligra/a.5 São voos em forma de poemas visuais do grande e
mínimo balão – mundo suspenso sobre o destino do universo em desenhos 0utuantes no oceano
de cada folha.
ignorar os significados
desse vento
é abuso d’alma (Livro do AR)
Suzana domina, em seus guaches, a escala cósmica sobre a miniatura do papel, como um artista
lírico chinês, budista ou taoísta do século XIII. O que já é um jogo de virtude estética até então
desconhecido dos seus trabalhos anteriores. Em cada pintura a imagem é posicionada e dimensionada
sobre o papel sempre ao centro, deixando respirar o vazio e o vento até as bordas, como
poemas visuais chineses que velam a potência do invisível e do silêncio, como jogos metafóricos
de dissolução de dicotomias entre céu e terra; ar e mar; vida e morte. Os desenhos se tornam caligra
/as e os versos se tornam imagens desenhadas.
Ética do amor fati – Presente total
vida, eu passo (Livro da DOR)
Nesta mostra circular, Suzana se inaugura e se reinventa de diversas maneiras. Se, por um lado,
somos remetidos à perda incurável pela melancolia do Fado de sua herança Portuguesa, por outro,
justamente pelo conatus, que Espinosa apresenta, em sua Ética, “como vontade, apetite ou desejo,
que exerce este esforço de renovar e inaugurar sua existência”,6 compartilhamos a odisseia e força
plástica da vida de Suzana, que surpreende a todos ao se colocar camu0ada, menina, dentro de
cada imagem, como personagem desta virada ao amor fati – “Sim à vida” de Nietzsche.7 Da dor e
da falta do pai, Suzana, tanto pelo in0ável como pelas suas pinturas, traz o ar e o mar como 0uxos
de vontade de futuro. É daí que encarna o verbo e a ética do presente total, sob sua atualização enquanto
“dom de doar virtudes”, do que Nietzsche, em Zaratustra, enuncia como dádiva de retornar
riquezas para a vida8. Ao mesmo tempo, descobre o que Bachelard expressa na “fenomenologia da
imaginação poética, (o que) permite-nos explorar o ser do homem como o ser de uma superfície,
da superfície que separa a região do mesmo e a região do outro.”
quantas asas, essa dor
rota às cegas (Livro da DOR)
Museu balão do tempo – poéticas infláveis do real
Laboratórios da transparência
Ao entrar na exposição, o visitante é tomado pela experiência multissensorial de diferentes
enunciações simultâneas – que fazem de cada um passageiro desta deriva e museu-balão, partes
de um único corpo redondo 0utuante, de múltiplas vozes. A trajetória de Suzana para o in0ável
realiza um paralelo, para a pintura, com a grande aventura da modernidade, cruzando a virada
do construtivismo para a desmaterialização do objeto artístico, à experiência suprasensorial
da realidade ambiental. As reflexões da artista sobre estes saltos para o espaço real já constituem
um sistema de forças plásticas do devir, que podemos chamar de laboratório existencial
da transparência. Estas esculturas orgânicas de separação de iguais – de ar com ar – vida com
vida – já ativam re0exivamente a modelagem dos horizontes experimentais da artista. A artista
já então toma consciência do acontecer solidário dentro de um ambiente bolha cromático.
O futuro está entreaberto com a experiência do presente, como um anseio de várias gerações
modernistas; ali, Suzana realiza também o futuro do século XX: a perspectiva de uma estética
existencial ou arte total (como projeto inacabado de Mondrian, Malevitch, El Lissitzky, Oiticica,
Lygia Clark e Pape, entre outros), de imersão do “espectador-participante” como organismo
sujeito – ativo e estruturante – da experiência (in)divisível entre pintura-escultura e mundo.
Aos poucos, a pergunta da artista sobre “onde está a pintura, dentro ou fora do in0ável?”,
também se desmancha no ar – quando a obra é 0utuante, instaurando um “entrelugar” que
se apropria dos 0uxos de visitantes-passageiros, tomados e tomando para si a fruição do ser
coletivo – praticante e constituinte dessa estrutura viva do contemporâneo. Com Olhos d’água,
Suzana toma fôlego na memória biográ/ca para plasmar um jogo metafórico que a habilita a
romper com os sistemas e ordens já fossilizados da arte-ciência e /loso/a do século passado. É
ainda da fenomenologia da imaginação ou do redondo que Suzana encarna nos in0áveis a visão
de Bachelard para a “dialética do exterior e do interior” – quando se coloca suspensa em um
balão como metáfora do sentido da arte e da condição humana : “o homem é o ser entreaberto”.10
Daí também pode-se reconhecer, nos Olhos d’água, o entreaberto como existir da arte no seu
sentido mais amplo de experiência pública. Daí, celebramos a total ressonância com a intuição
da forma arquitetônica do MAC, respirando e digerindo tragédia e vida na troca de ar com a paisagem.
Maria Cristina Ferraz com muita clareza apresenta as ideias de Nietzsche sobre força
plástica, memória e esquecimento como atributos do espírito encarnado, indissociável do corpo,
que se libera continuamente do que é peso e passado, para viver plenamente o estado criador
do presente, como invenção e atração do futuro. Não estaria Suzana praticando sua potência de
vontade e força plástica em sua plenitude, ao desmanchar no ar o que foi tragédia no mar do
voo do seu pai?
ilha ao longe, perco-me
a ver mais espaços do que coisas
esse mar eu não esqueço
a alma tudo venta (Livro do MAR)
Faz sentido também lembrar a tragédia de Van Gogh, que especulava: “provavelmente, a vida
é redonda.”
A instalação Olhos d’água é totalmente ambientada pela formação de uma atmosfera única
de diferentes fluxos, vida-morte, ar-água, mar-nuvem, gota e oceano que compõem as reversões
entre escalas humanas e cósmicas, micro e macro. Suzana traz cada um para o lugar solitário e
social da união e separação arte e vida, entre iguais, onde espaço e tempo são suspensos entre
opostos e os sentidos da vida e da arte incorporados como um coincidatio oppositorum. Na penumbra
azulada que toma conta do espaço central do museu, o visitante transita entre enigmas
poéticos, vídeos e desenhos que escondem e revelam pequenos poemas e pérolas das profundezas
de um existir ín/mo entre in/nitos. Acima de todos os visitantes/passageiros está o grande
in0ável ou es/nge de ar, arte e oceano, sobrevoando as indagações sem respostas – sejam as dos
domínios críticos da arte contemporânea, sejam as da existência: onde começa o oceano desta
exposição?
Suzana transforma o museu em um grande organismo vivo, onde seu in0ável azul encarna
o aparelho respiratório – pulmão – pneuma (alma), colocando a todos no mesmo balão/aeronave.
É deste processo indirigível da intuição que Suzana expressa de forma contundente: “esta
exposição é totalmente amorosa”. Se o MAC tem sua semelhança com um templo grego, Suzana
realiza, como artista contemporânea, uma travessia transcultural e transtemporal para o mito
do centauro Quiron, o curador ferido, que a todos cura, mas não a si próprio. Suzana oferece
a todos a transformação de sua tragédia particular pela renúncia da memória calada, para seu
esquecimento, na potência plástica e plasmática de si.
“A localização do museu foi essencial para esse projeto. Lido com essas memórias simbolicamente,
o despedaçamento e a dissolução do corpo no mar, o fado, a espera de quem jamais virá. É um
contato cada vez maior que faço com minha origem Portuguesa… Para mergulhar nessa proposta,
precisei pesquisar e abrir recentemente, junto com minha mãe, os arquivos que ela não via desde a
época do acidente, as matérias de jornal, as cartas de amor de um para o outro, os diários do meu
pai, telegramas, en!m, toda uma sorte de coisas que !zeram com que eu pudesse passar a conhecê-
-lo, e houve sintonias incríveis, os desenhos dele em azul, diários dele com as capas no mesmo azul
que eu uso, telegramas de minha mãe falando de azul. Aos poucos, conheço esse homem com uma
memória construída no hoje, o que talvez revestirá, com algum tipo de membrana, esse buraco
enorme que sempre senti dentro do peito”, declara a artista.
Amor e Arte são sentidos fundamentais para as transformações dos cânones modernos e
contemporâneos. Parabenizamos, com imensa gratidão, a coragem ou conatus (potência e resistência
para a vida) que envolve esta exposição, quando re0ete toda a virada existencial e espiritual
da artista, mas também do século XX para o XXI, exteriorizando o acúmulo e o adensamento
de vários séculos em um só tempo. O que está em jogo não é apenas uma trama ou trauma da
vida privada, mas a transmutação ou superação de dicotomias entre vida-morte, corpo e alma
(pneuma), como fundamentos esquecidos do sentido público do acontecimento do artístico no
mundo e, daí, cura-se também o próprio museu-memória, para ser lugar de memórias futuras,
de trânsito e fluxos de forças plásticas coletivas.


